quinta-feira, 8 de junho de 2006

É HOJE!

Carlos

Nem consegui dormir como deve ser! Não sou, sequer, um adepto fanático de futebol, mas isto de ver Portugal chegar à final de um Campeonato do Mundo mexeu mesmo comigo… A ansiedade é tanta que me custa pensar que tenho de esperar mais 10 horas pelo início do jogo! Brasil – Portugal! Quem poderia imaginar uma coisa destas?!



Pedro

Nem consegui dormir como deve ser! Não costumo ficar assim antes dos jogos, mas isto de chegar à final de um Campeonato do Mundo não é, de facto, normal. A ansiedade é tanta que me custa pensar que faltam 10 horas para o início do jogo. Jogar a final contra o Brasil! Quem poderia imaginar uma coisa destas?!



Carlos

Combinei com os meus amigos assistir ao jogo na Praça Sony. Ainda bem que conseguiram resolver os problemas dos direitos de transmissão e toda a gente se vai poder juntar para este momento histórico como se estivesse num estádio, a apoiar a equipa. Contra o Brasil, da maneira como eles estão a jogar, não vamos ter muitas hipóteses… Não tenho grandes esperanças, mas… Só espero que não vá para penáltis!!!



Pedro

Não há maneira do tempo passar. Fizemos o habitual passeio matinal e todos pareciam descontraídos. Mas eu sei que não estavam… Também disse as minhas piadas, todos nos rimos com as brincadeiras do costume mas, por dentro, tenho a certeza de que todos se sentem como eu: estômago apertado, um nó na garganta… Parece que o ar queima quando tento respirar. Sei que passa, quando entrar dentro de campo, mas porque é que não pode começar já?!



Carlos

Estamos todos nervosos e nem me apetece beber as cervejas do costume… Parece que há electricidade no ar… Todos têm um brilho diferente nos olhos… Deve ser a esperança… Afinal, são 90 minutos e toda a gente diz que, em futebol, tudo é possível… Vou aproveitar para me entreter com os cânticos e as imperiais até isto começar, para ver se o tempo passa mais depressa.



Pedro

Costumo utilizar estas horas no quarto para me concentrar, mas confesso que hoje não está fácil. Reparo nos outros e vejo que também falam menos do que é costume, mas, como eu, estão mais preocupados que nunca em seguir os seus rituais. Dou por mim a pensar no que passei para chegar aqui… Decididamente, não me posso queixar pois, aos 26 anos, dificilmente poderia pedir tanta sorte: jogo num dos melhores clubes do mundo, não vou ter de me preocupar com dinheiro no resto da vida, tenho família mais saudável do que a da maior parte dos meus colegas e, caramba, não só sou chamado à Selecção como vou ser titular na final do Mundial. Hoje, a Terra vai parar para me ver jogar!

Bolas, este é exactamente o tipo de coisas em que não posso pensar… Como se já não houvesse pressão suficiente…



Carlos

Bolas, nunca pensei que estivesse tanta gente! Dezenas de milhares de pessoas! Ainda bem que a Ana não gosta destas coisas, não gostava de ter de me preocupar com ela no meio desta confusão… Além disso, já estou um bocado com os copos e a amiga da miúda que está a falar com o Miguel é um verdadeiro canhão! Nem sabia que havia “tops” da Selecção, quanto mais daquele tamanho.

O melhor é mesmo que isto comece depressa…



Pedro

Os minutos parecem horas… Estamos quase a sair para o autocarro… O “Mister” deu a primeira palestra, mas confesso que nem ouvi bem o que ele disse… Estou a ficar preocupado… Isto não é suposto acontecer… Olho para os outros e, subitamente, todos me parecem concentrados, mas calmos… Serei só eu a sentir-me assim?! Tenho de falar com a Susana… Sei que não é suposto falar com ninguém de fora, mas vou ter de arranjar maneira. Não sou santo nenhum, já fiz muita merda, mas se não fosse o apoio da Susana acho que nunca teria tido força para chegar aqui. No estado em que estou, só a voz dela me pode acalmar, só ela vai perceber…



Pedro

Há coisas que não consigo perceber. Liguei à Susana do “hall” do hotel – tinham indicações para não deixar, mas uma camisola, um autógrafo e a promessa de um jantar fazem milagres com as recepcionistas… - e, mesmo se senti uma calma estranha, o nó na garganta não desapareceu… Será que, logo hoje, não vou ser capaz de ultrapassar isto?! Estamos a entrar no autocarro e nem consigo olhar para a cara dos outros. Sento-me, com a cabeça baixa, enquanto todos os sons são abafados pela música que emana dos “headphones” do meu I-Pod. Tento relaxar e acompanhar mentalmente o “Under the Bridge”, dos Red Hot Chilli Peppers… Que estranha escolha…
De repente, o meu cérebro começa a retransmitir, como se estivesse no cinema, os movimentos do Emerson e do Gilberto Silva: como recebem a bola, para que lado a protegem, quem procuram para entregar, que lado preferem pressionar, qual a perna de apoio… Na minha cabeça, vejo-me no campo, o que tenho de fazer, quem tenho de enfrentar… Parece que sinto a bola nos pés, o cheiro da relva, o barulho da multidão… Subitamente percebi! O nó desapareceu, o estômago relaxou e a adrenalina começou a fluir: há uma razão para, hoje, tudo ser assim. Eu nasci para isto, tudo o que fiz, ao longo da vida, foi para chegar aqui. É difícil de acreditar, mas é verdade: trocava tudo o que tenho, o dinheiro, a família, a segurança, para ter esta oportunidade. São as coisas que, até este momento, sempre quis, mas isto é diferente: é a oportunidade de ficar na história! Toda a gente saberá, para sempre, quem sou e aquilo que fui capaz de fazer.

Volto a olhar à volta e tudo me parece mudado. Como eu, também os outros têm os olhos fixos no vazio: já não são os companheiros indiferentes, com ambições próprias, com mau feitio ou com um ego desmesurado. Agora, somos todos irmãos, estamos no mesmo barco e sabemos que só juntos podemos conquistar aquilo que poucos se atreveram a sonhar e ainda menos tiveram hipótese de alcançar. Tem de ser hoje!

O autocarro está a chegar ao estádio e já só penso em entrar no balneário. As ruas estão vazias, todo este país deve estar em casa ou à procura de um lugar nas bancadas. Confesso que ainda tinha esperança de ver alguns portugueses à nossa espera mas… O quê? O que é aquilo? São… São milhares… do outro lado da rua… não os deixam passar…

O arrepio nas entranhas voltou, mas agora tem outro efeito, dá-me força. Saio do autocarro em último lugar, como sempre, e procuro dirigir-me à entrada sem dar importância ao que se passa, mas não resisto a virar a cabeça para olhar… E vejo. Vejo toda aquela gente, as lágrimas, a esperança e penso: hoje sou um deles. Dentro de campo, ou cá fora, sou um deles! Viro-me, para entrar, e o meu olhar cruza-se com o de um miúdo cuja cara está pintada com a bandeira de Portugal. Sem querer, os meus olhos demoram-se nos dele: há neles um brilho especial. Mais do que nunca, tenho a certeza: é hoje!



Carlos

Estava-se mesmo a ver que isto ia ser assim… Nem tocamos na bola. Estes gajos parecem parvos: estão na final de um Mundial e não são sequer capazes de correr. Cambada de chulos, só devem estar a pensar no prémio que vão receber, ganhando ou perdendo. Isto é uma vergonha, não havemos de ir a lado nenhum. Muita sorte têm estes cabrões por só estarem a perder 1-0 ao intervalo.



Pedro

Poucas pessoas se apercebem como o início de um jogo é importante, como são as coisas pequenas que podem decidir o que se vai passar a seguir… Nos primeiros cinco minutos, entrámos com tudo e, quando estava a começar a achar que nada nos podia parar, bastou um contra-ataque para deitar tudo por terra… O golo do Ronaldo abalou a confiança e, a partir daí, foi um desastre.

O “mister” está a dizer que temos de recuperar a bola mais depressa, mas o problema é que não ficamos com ela o tempo suficiente… Queremos fazer demais, depressa demais… Falhamos passes, não nos movimentamos bem e acabamos por andar a correr atrás deles… E, porra, eles jogam muito… Muita sorte tivemos por não chegar aqui a perder por três ou quatro… A conversa para motivar acabou, mas não precisamos de motivação, precisamos é de cabeça… e de confiar uns nos outros… Tento falar. Não sei o que disse, nem muito menos se me ouviram, mas as palavras foram saindo. Quanto estou a entrar de novo no relvado, o capitão vem ter comigo, põe as mãos no meu pescoço, olha-me nos olhos e diz: “Tinhas razão… É hoje!”



Carlos

Estes gajos querem-me matar! Que granda joga! Quando empatámos achei que íamos dar a volta à coisa, mas, quando eles fizeram o 2-1, convenci-me de que estava tudo acabado. Não pensei que fossem capazes de reagir, mas foi um espectáculo: a maneira como aquele gajo que joga no Bayern conseguiu recuperar aquela bola, já nos descontos e, de primeira, rasgar a defesa para que o lateral-esquerdo, vindo de trás, empatasse tudo outra vez… Pensei que ia ter um ataque cardíaco… E, se não fosse o cabrão do árbitro, isto estava ganho! Como é que o Juan, que só deu porrada, não foi para a rua. O prolongamento está a ser de morte, mas estão todos tão cansados que acho que ninguém vai marcar… Meu Deus, tudo menos os penáltis…



Pedro

Pensei que estava tudo contra nós. Depois daquela primeira parte miserável, parecíamos outra equipa depois do intervalo. Como um bloco, pressionámos a zona da bola e impedimos que a bola chegasse ao Kaka e ao Ronaldinho, começámos a ganhar espaços nas costas deles e o jogo mudou. De repente, éramos nós a controlar e o golo passou a ser uma questão de tempo. O problema foi que, depois de empatar, quando ainda estávamos a respirar fundo, para ir à procura do segundo, o cabrão do árbitro apitou aquela falta sobre o Ronaldo…Se fosse ao contrário, ainda levávamos amarelo… É incrível, os gajos não tinham feito um remate à baliza na segunda parte e o Roberto Carlos chega ali, manda um “bico” e pronto, está tudo estragado outra vez. Bem quisemos reagrupar, voltar ao princípio, mas o Parreira tirou o Ronaldo e o Kaka para por o Mineiro e o Cris e o espaço desapareceu. Pior ainda, não só não conseguíamos entrar como, no contra-ataque, eles só não marcaram por acaso…

Eu já estava a desesperar, tentava impedir a saída da bola mas, sozinho, também não dava. Será que estes gajos não percebem que podemos não ter outra oportunidade para estar aqui?!

O tempo já estava a acabar… Devíamos estar nos descontos… Estava tudo perdido, continuávamos com o “chuveirinho” para a área e o Lúcio agradecia… “Pronto, lá ganhou mais uma à vontade e eu agora que corra atrás dele no contra-ataque”, pensei, mas… subitamente, percebi que a bola ia na direcção do Gilberto Silva, que estava de costas para mim. Instintivamente, encurtei o espaço e percebi que não me tinha visto. “Vais proteger e rodar para a direita, em vez de dar ao Emerson, que está de frente e pode lançar o contra-ataque”, adivinhei e, enquanto pus a perna para cortar a bola, senti alguém entrar pela esquerda, ao mesmo tempo que a defesa deles subia. Tinha o pé esquerdo enterrado no chão, estava desequilibrado, mas sabia que tinha de ser naquele momento: consegui “encaixar” a bola entre dois gajos, vi uma camisola vermelha a surgir isolada e… caí. No meio daquele mar de pernas, nem percebi se ele tinha falhado ou não mas, quando vi o Ronaldinho de joelhos, com as mãos na cara, percebi: tínhamos empatado. Mais do que nunca, tive a certeza: agora ninguém nos pára… É hoje!

….

Carlos

Foda-se… Penáltis é que não! Nós lixamo-nos sempre nestas coisas… Só naquele milagre, contra a Inglaterra, quando o outro tirou as luvas é que nos safámos… Deus devia estar distraído… Quem vão ser os gajos a marcar? Estão todos borrados…



Pedro

O prolongamento foi a pior meia-hora da minha vida. Momentos houve em que todo o meu corpo pedia para desistir, em que pensei deitar-me no chão para não me tornar a levantar… O ar queimava-me os pulmões e os músculos tinham espasmos como se fossem rebentar. Mas não, hoje não… Hoje faço o que for preciso… É hoje…

Sabia que devíamos ganhar o jogo no prolongamento, porque isto dos penáltis é sempre lixado. Mas, agora que estamos aqui, isso já não interessa. Temos de marcar e acabou. A conversa sobre quem vai ter de bater já começou. Eu quero bater o primeiro mas… não… o “mister” quer que eu seja o quinto! Este gajo é parvo!!! Isto pode estar acabado antes do quinto! E logo aquele gajo, que não mete uma bola lá dentro há mais de um ano, enquanto eu não me lembro da última vez que falhei um penálti… Calma… Acredita nele… Estamos todos juntos nisto…



Carlos

É hoje que eu vou morrer… Quatro para cada lado e não há maneira de ninguém falhar… Isto é mau demais… Quem é que vai marcar agora? O Lúcio? Merda, nestas coisas os centrais nunca falham… Prefiro nem olhar… O QUÊ?! DEFENDEU!!!



Pedro

Eu nem estava a olhar mas, pelo barulho que passou pelo estádio como um trovão, percebi que a bola não tinha entrado… Está nas minhas mãos!!!

No fundo, sempre soube: eu nasci para um momento destes. Se a minha vida dependesse disto, não escolhia ninguém para bater em meu lugar. Sei o que estou a fazer e é como se cada dia da minha existência só agora fizesse sentido: cada fôlego, cada treino, cada erro, cada sucesso, só tinha o objectivo de me preparar para este momento.

Caminho lentamente para a baliza e penso na Marta, nos milhares de pessoas que estavam à nossa espera no estádio, nos milhões que estão em Portugal, sem respirar, a olhar para mim. Sou um deles, mas afasto isso da minha cabeça… Agora não há espaço para isso. Avanço para a bola e vejo o Dida na minha frente. Quer mostrar-me que é grande, mas isso já não interessa. É hoje!

A bola está na marca, e o animal já está entre os postes. Não faz diferença. Isto é entre mim e ela… Oiço o apito, preparo-me para partir… Parece que tudo se passa em câmara lenta… Num relance, vejo os olhos daquele miúdo… o brilho… as lágrimas… É HOJE!!!



Carlos

Nunca pensei que esta festa fosse possível… Os gritos à minha volta… A música… E a minha cabeça parece que vai estoirar!!! Como é possível!!! E pensar que aquele filho-da-puta que joga no Bayern teve o Mundial nos pés!!! Chulo de merda, havia de lhe acontecer como àquele colombiano, que levou não-sei-quantos tiros quando voltou a casa. Em vez disso, ainda deve ir hoje para os copos com umas gajas. Estes tipos só pensam no dinheiro… E de onde é que saíram estes brasileiros todos?!