O Sporting conquistou três pontos na Figueira da Foz e, se alguma conclusão é possível retirar do triunfo leonino, esta será que, das várias qualidades necessárias para atingir os objectivos traçados, a formação leonina apenas domina uma: vencer sem jogar bem.
Não deixa de ser sintomático que, ante um dos mais frágeis conjuntos da Liga, persista a incapacidade para dominar os acontecimentos através da gestão da posse de bola, carecendo ainda de volume ofensivo que possa garantir qualquer espécie de tranquilidade.
Perguntavam-me, num comentário a um post no Sector, quais as razões para as insuficiências da produção verde e branca e, no meu entender, a partida de hoje é suficientemente reveladora.
Para entender o que se passa é necessário assumir que o fundamental se centra nas acções do colectivo, independentemente de estas dependerem, em larga medida, das características individuais.
Este Sporting revela enormes dificuldades na recuperação da bola no meio-campo adversário, lacuna que não pode ser dissociada da irregularidade evidenciada quando em posse da bola.
Para fugir às frase feitas e à utilização de termos pseudo-técnicos, permitam-me só um esclarecimento que, apesar de óbvio, ajuda ao enquadramento adequado.
Utilizam-se com frequência as expressões "transição ofensiva" e "transição defensiva", termos em voga graças à evolução académica do estudo da modalidade e que, além de representarem a evidência, traduzem a alteração de mentalidades na orientação técnica do futebol. Não se trata aqui apenas da recuperação no terreno depois de uma perda de bola nem do antigo e bem conhecido "sair a jogar". No futebol actual, o momento decisivo é, frequentemente, o que coexiste com a mudança da posse de bola. Ou seja, a atitude do atleta tem de mudar instantaneamente, aliás, antecipadamente. O posicionamento de um atacante - ou seja, qualquer dos onze jogadores cuja equipa detém a bola - tem de ter em conta a necessidade de passar para uma atitude defensiva ainda antes de um "turnover", assim como, no instante da recuperação, este tem de adaptar a sua movimentação e postura à necessidade de aproveitamento dos espaços. Este é um processo colectivo que, como qualquer outro, tem de ser mecanizado.
Só assim, cumprindo ambas as missões, é possível actuar no meio-campo adversário.
Apenas uma equipa consciente do seu posicionamento ofensivo pode pressionar o oponente no momento da perda de bola, cerceando o tempo e o espaço de que o defensor disponha para iniciar um eventual ataque, o que se torna impossível se os sectores estiverem dispersos ou desorganizados. É este desequilíbrio que gera a necessidade de recuar - correr para trás - e o perigo potencial dos contra-ataques. O futebol faz-se, hoje mais do que nunca, do domínio dos tempos e dos espaços, sendo as equipas de Mourinho o melhor exemplo desta premissa fundamental.
É, portanto, neste capítulo que o Sporting peca em demasia, mesmo quando possui alguns elementos - Custódio, João Moutinho e, em determinadas circunstâncias, Carlos Martins ou João Alves - capazes de providenciar alguma liderança em ambos os processos - defensivo e ofensivo. Esta é, porém, uma faculdade que depende da acção de TODOS os protagonistas.
Por mais que Paulo Bento queira implementar solidez na construção de duas linhas de pressão, com blocos sólidos e solidários, a inexperiência - ou ausência de trabalho adequado, só o tempo dirá qual - de alguns atletas acaba por trair o esforço o que, aliado à falta de qualidade durante os períodos de posse de bola, redunda num efeito claro: a distância entre os sectores, que leva à concessão de espaços, ao recuo territorial e ao maior esforço para recuperar o esférico. Isto para além de, no momento da recuperação, ser muito maior o caminho a percorrer até à baliza adversária: maior desgaste, menor controlo... maior distância entre os sectores.
Este conjunto de factores é mais facilmente compreensível se recordarmos que, ao contrário do que sucedeu com Peseiro - à época com outros jogadores -, o melhor futebol do Sporting de Paulo Bento tenha surgido em 4-3-3: com três avançados, as deficiências de Nani e Douala - encarregues então das alas - nos capítulos acima referidos são mais facilmente atenuadas e João Moutinho pode exercer maior influência no centro do terreno.
Apesar de compreender a opção do técnico, que tem entregue o jovem 28 a constantes missões de sacrifício, à direita ou à esquerda, não posso concordar com a solução. Paulo Bento sabe que, assim, conta com um atleta eficaz e abnegado no plano defensivo, capaz de pressionar e garantir recuperações, mas perde inteligência e organização na construção da manobra ofensiva. Ou seja, a meu ver, obriga todo o conjunto a maior e desnecessário desgaste, adiando a indispensável mecanização do único processo que, com os atletas disponíveis, pode levar ao sucesso.
Claro que, ao contrário de mim, é bem possível que Paulo Bento saiba muito bem com que outras armas poderá lutar a partir de Janeiro, o que justificaria o sacrifício de mais alguns encontros... em troca dos pontos.