quinta-feira, 30 de junho de 2005

Amor à camisola

A relação entre clubes e jogadores (ou outros funcionários) tem sido muito discutida nos últimos tempos, fruto de acontecimentos recentes. Entre considerações de índole empresarial e as inevitáveis referências ao mítico "amor à camisola", parece-me importante lançar algumas ideias.

Há um aspecto que é claro. Entre um atleta e o clube que representa existe uma ligação contratual, explícita, que estabelece as obrigações entre as partes. Ou seja, a relação entre a entidade patronal e o funcionário é regulamentada por um vínculo que determina o papel de cada um: o funcionário compromete-se a participar nas sessões de treino e a jogar, mediante o pagamento de um salário previamente estipulado e de eventuais prémios relacionados com objectivos, durante o período correspondente à duração do contrato.

Podíamos ficar por aqui...

Hoje, contudo, esta análise é demasiado redutora, mesmo quando se trata de uma empresa que exerce outro tipo de actividade. Qualquer organização eficiente conhece a necessidade de motivar os seus funcionários, de modo a que seja possível extrair da sua produção mais-valias que o simples vencimento não garante. Quem de nós possuir experiência profissional, em qualquer ramo, conhece esta realidade: é bem diferente o rendimento de um "assalariado" que se limite ao estrito cumprimento das suas obrigações do daquele que se sinta vinculado ao sucesso da empresa/organização, quer por ter participação activa na forma como esta é gerida, quer por esta lhe proporcionar algo mais do que o mero salário.

Quero, com isto, dizer o seguinte: se esta máxima foi já compreendida no teoricamente impessoal "corporate world", na prática desportiva, na sua vertente competitiva, é essencial que os intervenientes se sintam motivados e envolvidos nos objectivos da sua entidade patronal, bem para além das suas obrigações contratuais.

Posso mesmo acrescentar: nenhuma equipa, em qualquer modalidade colectiva, na qual a entidade patronal e os seus funcionários cumpram escrupulosamente - apenas e só - as suas obrigações contratuais, terá hipótese de ser campeã.

Para formar um grupo vencedor é indispensável que existam factores transcendentes, ou seja, elementos capazes de criar uma identidade própria, com a qual todos se identifiquem. "Transcendência" será mesmo a palavra-chave: dela dependem as vitórias, no deporto como em qualquer actividade exercida ao mais alto nível.

Claro que este princípio não é fácil de gerir, nem muito menos de aplicar. Em Portugal, ou melhor, no futebol português, apenas um clube tem sido capaz de assegurar aos seus atletas a tal identidade colectiva - à qual não são alheios os indispensáveis conceitos de lealdade e protecção: o FC Porto.

Dito isto, importa desmistificar outra ideia: o "amor à camisola", na sua versão original, é uma espécie extinta. A ligação emocional que se forma entre um clube e um jogador já não obedece ao tradicional "clubismo", mas sim a uma prática reiterada de respeito mútuo e a uma trajectória comum.

Então em que é que ficamos?

A entidade patronal deve ao seu funcionário algo para além do estipulado no contrato? O funcionário tem alguma obrigação para com a sua entidade patronal que ultrapasse o compromisso estabelecido no vínculo?

A resposta é simples: depende...

Para vencer é indispensável impor um elevado grau de exigência. Para que essa imposição seja assimilada pelo grupo é necessário que, no seio desse grupo, haja quem assuma a liderança, numa perspectiva de sentido de urgência. Por outras palavras, um ou mais "funcionários" têm de personificar a mentalidade e a identidade do clube que representam.

Os que o fizerem, de acordo com os princípios e valores defendidos pela entidade patronal, ultrapassam a mera obrigação contratual e, por isso, merecem desta um tratamento diferenciado, que garanta o prolongar da "aura" de respeito mútuo e dedicação.

Este vínculo, mais profundo que qualquer contrato e, até, do que o tradicional "amor à camisola", é "sagrado". Quem lhe for fiel ganha o respeito de todos e incute nos restantes "funcionários" a sensação de "identidade corporativa". Traduzindo, os jogadores que ficam desejam estabelecer o mesmo tipo de ligação porque se sentem parte de uma comunidade de objectivos e valores. Todos (os bons), no futebol ou na vida, querem deixar a sua marca, querem garantir a "imortalidade" dos seus feitos. Isso só é possível se estivermos ligados a algo maior que nós: um clube, uma empresa, um país, uma família, uma comunidade.

Isto pouco tem de emocional, é apenas lógico e "certificado" pela esmagadora maioria das correntes de opinião dedicadas à gestão de recursos humanos.

Claro que, no futebol, por definição umbilicalmente ligado à emoção, estes factores assumem ainda maior relevo. Quem não o perceber...

sábado, 25 de junho de 2005

Revolução no covil do leão

Para quem se queixava da falta de actividade da SAD verde e branca, as próximas horas - e os próximos dias - serão uma novidade. Algo está a mudar no reino do leão...

sexta-feira, 24 de junho de 2005

O peso da pasta

Por mais que se pretenda o contrário, a verdade é que poucas coisas pesarão tanto como a "pasta"...

Não me refiro aqui aos desgraçados que invariavelmente carregam o acessório junto ao corpo, suando nos sobrelotados transportes públicos, nem àqueles que sofrem por uma bela pratada de lasagna...

Hoje, o que move o mundo - e o futebol está longe de ser excepção - é outro tipo de pasta: o carcanhol, o arame, o guito, o papel... Enfim, o dinheiro.

Assim vivem os grandes clubes, assim sobrevivem os mais modestos.

No que diz respeito aos rivais da capital - na Invicta, "dinero no es problema" -, a relação entre as expectativas financeiras e as ambições desportivas convive de forma diversa.

No Sporting, dois jogadores agitam as mesas de negociação. Liedson está a um passo de regressar ao Cortinthians, sempre e quando o "Timão" ceda às exigências "capitais" dos responsáveis verde e brancos - ou, em alternativa, envolva no negócio um ponta-de-lança que faz as delícias de Peseiro -, e Enakarhire insiste em cativar o interesse do Dínamo de Moscovo.

Apesar de, para já, os processos parecerem semelhantes, há que compreender o essencial das duas realidades:

Há muito que equipa técnica e dirigentes se conformaram com a possível partida do goleador, eventualidade, garantem-me, devidamente acautelada - o Sporting terá uma lista de quatro pontas-de-lança, ordenada em função do grau de prioridade, capazes de render o 31 - mas poderão ser forçados a abdicar do central nigeriano, algo que preferiam não fazer. Aqui, o que conta são as ambições de atletas seduzidos por vencimentos que o clube não pode suportar. Ninguém quer jogadores contrariados e, no caso de ambos rumarem a outras paragens, os leões poderão encaixar cerca de 14 milhões de euros... A verba é tentadora e permite que, no final da próxima temporada, não sejam obrigados a vender ninguém.

Já para os lados da Luz, a relação com o tema é substancialmente diferente. Os encarnados pretendem adquirir mais quatro ou cinco reforços, reservando para o efeito um verdadeiro camião de... pasta. O Benfica está disposto a pagar salários no valor de quatro milhões de euros anuais aos novos elementos do plantel. Em números redondos, estamos a falar de cerca de um milhão para cada um...

sábado, 18 de junho de 2005

Sporting 2005/06

Depois de um pequeno interregno, regresso à análise dos plantéis dos três grandes, com o post dedicado aos leões. Refira-se que, no que ao capítulo das contratações diz respeito, o Sporting está condicionado pela total ausência de disponibilidade financeira. O objectivo passa pela contratação de um extremo-esquerdo, sendo certo que qualquer outra aquisição ficará dependente de eventuais saídas. Ou seja, mediante as possíveis transferências de activos, o emblema verde e branco apenas fará as correspondentes "reposições".

GUARDA-REDES

A composição de um sector onde não há certezas depende do futuro de Ricardo. Ao contrário de muitos, acredito que o camisola 76 dá todas as necessárias garantias de qualidade, mas a sua saída continua a ser uma possibilidade. Caso venha a acontecer, será engraçado assistir, mais uma vez, à mudança de opinião dos seus actuais detractores: daqui a um ano, voltará a ser, indiscutivelmente, o melhor guarda-redes português. Os responsáveis do clube continuam a tentar convencer Nélson a sair. Ganha dinheiro a mais e nunca será um guarda-redes capaz de assegurar a titularidade. Caso Ricardo deixe Alvalade, Marcos, do Marítimo, deverá ser o sucessor.

DÚVIDAS

Ricardo - Sucumbiu ao infortúnio de uma época ingrata. Depois das hesitações da temporada de estreia, exibiu-se, com regularidade, a um nível elevado e, excepção feita a dois erros ocasionais, foi decisivo na conquista de muitos pontos. Assumiu-se como factor de segurança, fez a diferença em momentos importantes, mas tudo caiu por terra na Luz. Nunca ninguém irá esquecer o erro que ditou o adeus ao título. Agora, com o Arsenal interessado nos seus serviços, poderá estar prestes a deixar Alvalade, isto caso os "Gunners" estejam dispostos a abrir os cordões à bolsa. Bastar-lhe-á uma época sofrível em Inglaterra para encantar a crítica que, enquanto o viu de leão ao peito, sempre o crucificou.

Nélson - Há uma imagem que o define. Num jogo contra o FC Porto, ainda Jorge Andrade se preparava para cabecear, a poucos metros da baliza, já o camisola 1 erguia os braços no ar, em sinal de confiança: "Se não for à baliza não é golo". Com um ordenado milionário e um joelho de vidro, a sua saída é uma prioridade para a SAD, mas a falta de vontade de jogar - e o amor ao dinheiro - fazem com que Nélson seja difícil de convencer.

Tiago - Tem algumas vantagens em relação a Nélson: tem um perfil adequado à filosofia do clube e, geralmente, quando lhe acertam não é golo - com o camisola 1 isso está longe de ser uma garantia. Pode ser um bom suplente, mas o salário elevado também é difícil de suportar.

Mário Felgueiras - Terá, provavelmente, o seu lugar no plantel. Apesar de não possuir a envergadura física aconselhável à sua posição no terreno, exibe argumentos técnicos e psicológicos que lhe garantem margem de progressão.

Nuno Santos - Confesso que, depois de ter acompanhado a sua prestação ao serviço do Estrela da Amadora, na Liga de Honra, fiquei convencido de que não mais seria capaz de evoluir. Foi, pois, com algum espanto, que segui o seu bom desempenho com a camisola do Penafiel. Melhorou, demonstrou que não estancou a sua progressão e recebeu, como prémio, a renovação. Não acredito, porém, que atinja o nível exigido a uma primeira opção num emblema com as responsabilidades do verde e branco.

DEFESA

A falta de definição afecta as alternativas para o quarteto defensivo, mas numa dimensão mais reduzida. A eventual saída de Enakarhire pode implicar uma diferença de registo no que à solidez do conjunto diz respeito mas, caso Polga consiga atingir o nível exibido em 2003/04, fará com Beto uma dupla capaz de rivalizar com qualquer outra. A promoção de Miguel Veloso abre a porta de saída a Hugo, faltando apenas saber quem chegará para colmatar a saída de "Enak", caso esta se concretize: Zé Castro, Nunes ou João Paulo são as soluções em carteira.

CONFIRMADOS

LATERAIS

Miguel Garcia - Um jogador medíocre que, num segundo de merecida felicidade - golo frente ao Alkmaar - conquistou o estatuto de herói. Lateral-direito-que-começou-por-ser-central-mas-que-queria-mesmo-era-jogar-como-trinco, Miguel Garcia evoluiu muito durante o último terço da temporada mas será sempre encarado como solução de recurso perante eventuais ausências de Rogério.

Rogério - Nem parece brasileiro. Extremamente inteligente na forma como potencia as suas qualidades e anula os seus defeitos, o antigo capitão do Corinthians impressiona pela gestão do jogo, do qual faz, permanentemente, uma leitura perfeita. A polivalência evidenciada joga a seu favor mas a verdade é que foi no lado direito da defesa que conseguiu fazer a diferença. É um líder.

Edson - Tem a responsabilidade de render o melhor lateral-esquerdo português (sim, isto é opinião e está é a minha. Se encontrarem algum melhor que Rui Jorge avisem-me) que era, também, um elemento fundamental no balneário verde e branco. Mais alto e mais rápido que o seu antecessor - características pretendidas por José Peseiro - acrescenta ao seu arsenal um forte pontapé e eficácia na execução de lances de bola parada. Cá estaremos para apreciar a sua integração no conjunto.

André Marques - A relativa experiência de Edson servirá de "almofada" à sua progressiva integração na equipa. A invejável envergadura física, aliada a uma apreciável capacidade técnica, fizeram dele a mais forte e recente aposta dos responsáveis leoninos. Terá espaço e tempo para evoluir, mas esperam-se rápidos progressos.

CENTRAIS

Beto - Aqui irei, certamente, entrar em rota de colisão com a maioria dos leitores. Trata-se, para mim, (insisto) do segundo melhor central português. Depois de Ricardo Carvalho, o 22 do Sporting é o mais completo dos que actuam nesta posição e, se jogasse noutro clube, os seus méritos já teriam sido, certamente, reconhecidos. Sentido de posicionamento, visão de jogo, capacidade física, técnica individual e classe são argumentos que fazem dele uma mais-valia. Com o recuo do Villareal, deverá permanecer no plantel.

Polga - O deficiente rendimento evidenciado durante largos períodos da temporada agora finda representa para mim um verdadeiro mistério. Casos há, e muitos, de centrais que, durante curtos períodos, exibem qualidades que, porém, são incapazes de sustentar com regularidade (Quiroga e Contreras, entre outros, estarão ainda na memória de todos). Essa não é, contudo, uma análise que se possa fazer às características deste campeão do mundo já que, em 2003/04, patenteou, com impressionante consistência, um elevado nível de rendimento. Terá de ultrapassar os problemas que o afectaram mas, se o conseguir, o Sporting volta a contar com um excelente elemento.

Miguel Veloso - A segunda aposta nos escalões de formação deverá garantir o posto de "quarto" central. Não lhe reconheço grandes qualidades e não aprecio a sua personalidade. Caber-lhe-á, através do seu rendimento futuro, alterar a opinião de quem pensa como eu.

DÚVIDAS

Paíto - Possui todas as características físicas e técnicas necessárias a um grande lateral-esquerdo mas foi sistematicamente traído pela fragilidade psicológica. Com profundos defeitos na sua formação, não demonstrou suficiente aplicação na tarefa de debelar a completa ignorância táctica e deverá pagar o erro com a saída.

Mário Sérgio - O golo de Miguel Garcia em Alkmaar "roubou-lhe" o espaço que ainda esperava ocupar. Continuo a pensar que se trata de um excelente lateral-direito em potência - um jogador que, nessa posição, ao serviço do Paços de Ferreira, se consagra como o segundo melhor "assistente" do Campeonato, atrás apenas de... Deco, tem de ter qualidade - e, agora, com uma eventual cedência, terá ocasião de o provar.

Enakarhire - Foi uma das revelações da última edição da SuperLiga. Chegou ao Sporting sem que grandes expectativas o rodeassem, mas cedo se assumiu como um central poderoso. Intratável na marcação e consciente das suas limitações no capítulo técnico, foi o mais forte argumento defensivo do leão, excepção feita à final da Taça UEFA. Pode estar a caminho de Moscovo, até porque é essa a sua vontade.

Hugo - Disse-se, em sua defesa, que é um excelente profissional. Respeito o argumento mas, apesar de tudo, ser jogador de futebol num clube da dimensão do Sporting não é o mesmo que trabalhar numa fábrica de sapatos: não chega chegar a horas, é preciso ter alguma aptidão para a coisa. Ora, nitidamente, esse não é o caso. Prefiro não dizer mais nada, até porque deve deixar o clube.

MEIO-CAMPO

O modelo de jogo instituído por José Peseiro confere ao sector intermédio um papel fundamental. É no desempenho dos elementos que o compõem que se centra o essencial da filosofia de jogo: zona pressionante sem bola, mobilidade e circulação na posse da mesma. Hugo Viana e Pedro Barbosa são as baixas, mas só a do segundo será difícil de colmatar. Contudo, com apenas seis elementos para oito posições, torna-se indispensável proceder a um reforço: apenas Rodrigo Tello se apresenta como solução natural para interior-esquerdo.

MÉDIOS DEFENSIVOS

Custódio - A sua prestação ao longo da temporada dissipou a sensação de desilusão que me provocou o desempenho em 2003/04, sob o comando de Fernando Santos. Disciplinado no plano táctico e pragmático na abordagem ao jogo, conquistou um espaço de destaque na organização leonina. A sua acção assume um papel preponderante na missão de conferir equilíbrio à equipa.

Rochemback - Poderia estar inscrito na categoria seguinte mas a ausência de alternativa a Custódio e as suas características aconselham-me a apelidá-lo assim, mesmo se raras foram as vezes em que desempenhou tais funções em 2004/05. Com os índices físicos condicionados pela lesão que o impediu de fazer o trabalho de pré-época, José Peseiro optou por resguardá-lo do confronto directo e preferiu utilizá-lo em terrenos mais adiantados, que não correspondem por inteiro às suas características. Sendo certo que nunca alcançou o nível exibido na temporada anterior, não é menos verdade que o espírito competitivo e a vontade de vencer ajudaram o grupo em momentos difíceis. Chegou a jogar em condições físicas que impediriam de andar o comum mortal. Espera-se que, para a próxima edição da SuperLiga, se apresente no pleno das suas capacidades.

Labarthe - Aqui fica provado o meu insuperável conhecimento do futebol internacional. Ao contrário de muitos outros, estou disposto a revelar tudo o que sei sobre o primeiro reforço oficial para a temporada 2004/05: absolutamente nada! Marcelo Labarthe foi incluído no negócio da transferência de Tinga como um factor acessório e ninguém em Alvalade alimenta grandes expectativas em torno das suas capacidades. As minhas fontes no Brasil dizem-me que se trata de um médio com qualidades técnicas, que poderá evoluir para se tornar num jogador razoável. Espero para ver.

MÉDIOS OFENSIVOS

Carlos Martins - Está a meio neurónio de ser um "craque". Que pena não ter nenhum... Possui extraordinária visão de jogo - é, provavelmente, um dos melhores do mundo na gestão do contra-ataque - , notável facilidade e eficácia no remate, com qualquer dos pés - característica inata e rara num jogador português - e condições físicas para explanar a sua técnica. Se conseguisse ultrapassar a falta de maturidade e as condicionantes psicológicas, poderia tornar-se numa referência do futebol português, o que, no entanto, me parece muito improvável.

João Moutinho - Foi o próprio José Peseiro quem o confessou: "Se é verdade que há pessoas que nascem para jogar à bola, o João é certamente uma delas." A disponibilidade física que lhe permite recuperar bolas frente a adversários do "dobro" do seu tamanho e a forma inteligente como as endossa aos seus companheiros, muitas vezes em passes de ruptura, só são superadas pela invulgar maturidade competitiva. Se, na estreia como titular nas competições europeias, "encheu" a "banheira" de Roterdão, o impressionante nível exibido em todas as partidas em que participou garantiu-lhe um lugar entre os melhores da temporada, mesmo se só disputou um número reduzido de encontros. Já despertou a cobiça dos gigantes europeus e, se nada de anormal suceder, com Manuel Fernandes a seu lado (sei que me estou a repetir, mas eles merecem a insistência), a Selecção Nacional terá meio-campo para os próximos dez anos.

Tello - O Sporting não chegou a pagar por ele os valores que foram então divulgados mas não deixa de ser, tendo em conta a relação preço/qualidade, um dos jogadores mais caros do mundo. Com o 4-1-3-2 de José Peseiro teve oportunidade de actuar na posição que mais lhe convém (interior esquerdo), mas apenas conseguiu provar que... pode fazer parte do plantel. Útil, embora nada mais que isso, desde que não seja primeira opção.

ATAQUE

Aqui, tal como na baliza, tudo depende da continuidade de um único elemento: Liedson. O melhor marcador da SuperLiga poderá condicionar a política de contratações do leão, bem como o nível das aspirações do clube na próxima época, no caso de não ser possível colmatar uma eventual saída com um avançado de semelhante produtividade. Certo é que o Sporting pretende adquirir, independentemente da evolução do mercado, um extremo-esquerdo, de forma a oferecer ao treinador a possibilidade de contar com o 4-3-3 como alternativa.


CONFIRMADOS

EXTREMOS

Douala - Não haverá, certamente, ninguém mais rápido que ele na SuperLiga. O rapaz corre os 100 metros em menos de 11 segundos, sobre a relva!!! O que não faria em pista, com equipamento apropriado? Pena é que à velocidade estonteante não seja capaz de aliar a conveniente eficácia (falta inteligência e capacidade técnica), pelo menos com consistência. Provou, porém, aos mais cépticos (entre os quais eu me incluía) que pode ser útil e, até, por vezes, fundamental, na tentativa de criar desequilíbrios na defensiva adversária. O seu pior defeito prende-se com uma irritante tendência para a hipocondria... Qualquer sprint lhe provoca "uma dor" e qualquer dor o impede de jogar...

Varela - A boa prestação com as camisolas do Casa Pia e das selecções nacionais garantiu-lhe um lugar no plantel, pelo menos durante a pré-temporada. Veloz e tecnicamente evoluído, pode actuar em qualquer posição no ataque mas é nas alas que deverá ter a sua oportunidade. Mantenho algumas reservas relativamente ao seu potencial, mas aguardo por mais dados para formular uma opinião definitiva.

AVANÇADOS

Pinilla - Foi o campeão do azar. Depois do medíocre desempenho do início da temporada, que o atirou para o banco de suplentes (ou para a bancada), regressou ante o Moreirense para marcar um golo portentoso e... sair lesionado. O penoso caminho rumo à recuperação do ritmo competitivo obrigou-o a esperar, paciência recompensada pelo tento apontado na meia-final da Taça UEFA, imediatamente seguido de um "hat trick" frente ao Braga. De anedota passou a "Pinigol" mas, na véspera da final de Alvalade, voltou a sucumbir a uma lesão grave. Terá, na próxima época, a oportunidade de clarificar todas as dúvidas sobre a sua qualidade. Estou convencido que se trata de um bom jogador, só não sei se será um verdadeiro ponta-de-lança.

Sá Pinto - Foi, para mim (e para ele também), a grande surpresa da temporada. Ninguém esperava que, após quase quatro anos de profundo calvário, fosse capaz de regressar à competição, muito menos ao nível exigido num clube da dimensão do Sporting. Constituiu-se mesmo como um importante "reforço" de Inverno, adicionando capacidade de pressão, classe e linhas de passe à frente de ataque. Beneficiou da paciência votada à sua recuperação e do facto de lhe ter sido dada a oportunidade de jogar na sua posição: a equipa beneficia da sua polivalência, mas é no ataque que melhor rendimento garante. A ingratidão e a "memória selectiva" sempre me provocaram irritação. Muitos tinham já esquecido - ou feito por esquecer - que Sá Pinto, sem nunca ter sido um fora-de-série, foi um dos melhores da sua geração. Aos mais "distraídos", lembro a forma como carregou aos ombros uma medíocre equipa do Sporting até ao segundo posto do Campeonato (e à Liga dos Campeões), sob o comando do inenarrável Octávio Machado, e aconselho uma passagem pelo canal memória, que tem transmitido jogos da selecção nos quais se destacou bem mais do que a maioria. Só é pena não ser bom da cabeça...

Liedson - Que dizer do melhor marcador da SuperLiga? O 31 é o melhor e mais decisivo avançado a pisar os relvados portugueses desde Jardel e, apesar de não possuir as características de "SuperMário", garante mais golos que qualquer outro. Incansável dentro das quatro linhas, sem nunca abdicar de pressionar os defensores adversários, provocando e acreditando no erro, tem, porém, no instinto de matador a sua arma fundamental. Sendo pouco provável que o Corinthians esteja disposto a gastar os milhões que os leões exigem para dar o acordo a uma eventual transferência, a sua continuidade é, para já, o cenário plausível. Deste facto em muito poderá depender a ambição do emblema verde e branco.

Manoel - Foi a primeira contratação da era "pós-Freitas", o que, sem dúvida, desiludiu quem esperava a chegada de atletas com nomes sonantes. Apesar de se tratar de um avançado móvel e rápido, adquirido em final de contrato, terá dificuldades em conquistar o seu espaço na equipa. Não me parece que tenha qualidade ou estrutura mental para se tornar um valor acrescentado, mas tem um facto a seu favor: as expectativas de crítica e adeptos são tão baixas, que tudo o que fizer será visto como positivo. Houve quem achasse o mesmo de Douala (a começar por mim) e tenha sido obrigado a mudar de opinião...

DÚVIDAS

Lourenço - Vou tentar ser breve, para evitar alguma crítica mais violenta. A sua falta de inteligência no plano táctico aproxima-se do absurdo: qualquer semelhança entre Lourenço e um jogador de futebol não é coincidência, é um erro de cálculo! Limitado tecnicamente e dotado de uma personalidade incompatível com a prática de uma modalidade colectiva, a sua presença no quadro profissional é para mim um mistério. Como se tal não bastasse, ainda é capaz de criar mau ambiente em qualquer balneário que frequente... Enfim, chega de criticar um atleta em final de carreira...

Silva - O "Pistoleiro" que, em Guimarães, defrontou o Sporting e apontou dois golos seria um jogador importante em qualquer equipa portuguesa. Infelizmente para ele e para quem lhe paga, a incapacidade de exibir regularmente um nível elevado impedem-no de se tornar num factor decisivo. Acredito, porém, que poderá ter a sua utilidade no plantel, desde que não seja enquanto opção prioritária.

Niculae - Perseguido pelo azar - leia-se lesões - o jovem e promissor ponta-de-lança que, em 2001/02, deslumbrou a Europa do futebol, tornou-se num atleta banal que há muito procura, sem sucesso, encontrar a chama de outrora. Não sendo, hoje, uma sombra do jogador em que prometia tornar-se, vai deixar o Sporting por não aceitar a redução de vencimento que lhe foi proposta. É, até ao final do mês, o jogador que mais elevado salário cobra em Alvalade.

Edgar Marcelino - Foi, durante muito tempo, a principal aposta da formação leonina. Rápido a executar e muito forte no um-contra-um, este extremo dextro que (como Simão) prefere actuar sobre a esquerda do ataque tem qualidade suficiente para merecer a oportunidade que o seu temperamento imprevisível até agora lhe negou. Deverá fazer a pré-temporada com o plantel principal, na tentativa de tentar conquistar a confiança do treinador. É agora, ou nunca...

sexta-feira, 17 de junho de 2005

Saudades

Em primeiro lugar, espero que me desculpem pela ausência prolongada, mas o trabalho tem sido muito...

Não podia, porém, deixar de registar um facto interessante.

Giovanni Trapattoni saiu do Benfica por motivos pessoais, uma vez que não queria estar longe de Itália e da sua família. Razões nobres, que correspondem a valores que o presidente dos encarnados garantiu compreender.

Só há uma coisa que não percebo...

Pelos vistos, as saudades de "Trap" eram tão pungentes que acabou por assinar... pelo Estugarda... É que é já ali...

quinta-feira, 9 de junho de 2005

Ronald Koeman

Parece-me ser muito cedo para apreciar as qualidades do novo técnico do Benfica. A hipotética inexperiência não pode ser um factor de avaliação, assim como os títulos conquistados na Holanda não são suficientes para lhe atribuir o prestígio que alguns lhe apregoam.

Certo é que Ronald Koeman é uma figura importante no panorama do futebol europeu, sobretudo por aquilo que demonstrou enquanto jogador. Na sua formação como técnico, trabalhou com alguns dos melhores no ramo, desenvolvendo, certamente, as capacidades adequadas à função. Resta saber, por outro lado, até que ponto possui, no que à gestão de um grupo de homens diz respeito, os recursos necessários à construção de uma mentalidade colectiva vencedora. Muito cedo, portanto, para conclusões, em qualquer sentido.

Vou dizer-vos o que me espanta.

O Benfica passou de Camacho, um técnico que procurava incutir uma mentalidade ofensiva no seu conjunto, para Trapattoni, profissional de indiscutível passado, mas definido por uma cultura de contenção.

Campeões com Trapattoni, apoiados num futebol directo e sincopado, no qual o assumir da condução do jogo nunca foi prioridade, os encarnados viram-se agora para Koeman, treinador que assenta na posse da bola toda a concepção do modelo táctico. As equipas do holandês gostam de ter a "redondinha" bem guardada junto ao pé, construindo a manobra ofensiva através de rápida circulação em espaços curtos.

Que fique claro, é assim que entendo que o futebol deve ser jogado. A minha chamada de atenção vai para uma sequência de opções que parece revelar uma de duas coisas: ou não existe uma linha de rumo ou a criação de um modelo para o Benfica está longe de ser uma prioridade.

Depois de "Trap" ter perdido meses para convencer os seus jogadores a não subir no terreno, que terá de fazer Koeman para lhes devolver o apetite pelos rápidos ataques e trocas de bola?

PS - Surgiu hoje na imprensa holandesa uma notícia - que, logicamente, não posso confirmar - através da qual se confirma a presença de Ronald Koeman na Luz e se aponta como primeiro reforço do seu consulado... um guarda-redes.

Pedro Barbosa, ou o adeus de um génio incompreendido

Um acontecimento recente obriga-me a interromper a sequência de posts relativos à analise dos três grandes.

Ouvi ontem, da boca de Pedro Barbosa, as palavras que selaram a sua despedida do Sporting.

Lamento, pela concepção que tenho do desporto (e dos próprios actos de gestão de imagem, para que não se pense que este comentário é ditado pela emoção), que o processo que conduziu ao "adeus" tenha sido gerido desta forma - ou não tenha sido gerido de todo - e tenha provocado uma separação menos "amigável". Entendo o discurso, sobretudo quando conheço as influências que estiveram na sua génese. Há quem tenha saído pelo seu próprio pé e, hoje, aposte em desacreditar quem ficou...

Prefiro, porém, falar de um jogador que, ao longo dos anos, confundiu o meu conceito de futebolista. Confesso que, até há pouco tempo, estava longe de ser um admirador de Pedro Barbosa, pelo contrário, a inconstância do seu rendimento e a atitude aparentemente displicente provocavam-me alguma irritação, sobretudo por emanarem de um atleta com tanto talento.

A minha opinião sobre esta matéria começou a mudar com a alteração de perspectiva. Em 2003, deixei a secção do Benfica, clube que acompanhava, para ingressar na secção do Sporting. Apesar de, então, não ter ficado satisfeito com a mudança (por razões meramente profissionais, que não clubísticas, apesar da alteração ter envolvido uma promoção), cedo percebi que tinha de "agradecer" o atravessar da segunda circular por uma razão muito simples: a passagem para o Sporting permitiu-me assistir, "ao vivo", aos últimos dois anos da carreira de Pedro Barbosa.

Passei muito tempo a entrevistar jogadores, uns mais novos e outros consagrados, que, perante a inevitável pergunta "quem são as tuas principais referências (não se pode dizer ídolos porque eles não gostam...) no futebol?", sempre respondiam: "Zidane no estrangeiro e Pedro Barbosa em Portugal. Perante o meu espanto inicial, justificavam: "Vocês não imaginam... Ele faz coisas que mais ninguém faz, faz coisas que ninguém sonha sequer tentar fazer..." Pude, entretanto, verificar a exactidão de tais comentários, provenientes de autores tão avalizados como... Luís Figo.

Sendo certo que nem sempre teve o melhor enquadramento mental para o rendimento exigido no mais alto nível competitivo, a verdade é que evoluiu muito nesse aspecto e, no último terço da sua carreira como leão, transformou-se num líder incontestado. Tivesse tido, aos 26 anos, a mentalidade que tem hoje e teria sido, seguramente, um dos melhores do mundo.

O ar displicente com que pisava o relvado nada tinha a ver com indiferença, apenas era ditado por uma personalidade forte e irreverente. Inabalável perante a adversidade, insensível a críticas ou assobios, foi sempre igual a si próprio, executando da forma que, no seu entender, era mais eficaz e melhor se adequava às circunstâncias. Pecava apenas, na minha opinião, pela permanente recusa em optar pelas soluções mais simples. Só o fazia quando tinha certeza de que todos esperavam uma opção rebuscada.

Sem nunca ter sido uma figura unânime no Sporting ou no futebol português, acredito que Pedro Barbosa foi um génio, sempre incompreendido, mas um exemplo incontornável do enorme talento que este país é capaz de gerar. Sem dúvida, para mim, um dos maiores, senão o maior, da sua geração.

Para os adeptos do leão, deixo uma garantia: nos últimos anos, nenhum outro jogador do Sporting defendeu o clube, perante tudo e todos, dentro e fora do relvado, como o camisola 8.

A título pessoal, como fiz, aqui, para Rui Jorge, deixo a minha "despedida":

Apesar de nunca teres gostado de jornalistas, numa relação que nunca foi fácil, agradeço-te, Pedro (como eras conhecido em Guimarães), por momentos de futebol que jamais irei esquecer. Até sempre...

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Benfica 2005/06

GUARDA-REDES

As alternativas para o posto de guardião não deverão sofrer alterações, até porque oferecem suficientes garantias de qualidade. Quim e Moreira apresentaram ambos índices positivos de rendimento na época agora finda e deverão manter acesa a luta pela titularidade. Se, de momento, o ex-bracarense tem na experiência acumulada um forte argumento, a verdade é que o camisola 1 é quem tem maior margem de progressão. Aguardo com alguma expectativa a decisão do futuro treinador.

CONFIRMADOS

Moreira – É, sem dúvida, um jogador com clara margem de progressão e que evoluiu muito nas últimas duas temporadas. Se, numa primeira fase da sua carreira na Luz, raramente abandonava a linha de golo, foi ganhando confiança e oportunidade nas saídas, sendo hoje um guardião completo. Poderá não ser, ainda, claramente superior a Quim mas, ao contrário do seu “adversário” na luta pela titularidade, tem ainda espaço para evoluir.

Quim – Uma série de exibições seguras “calaram” os seus detractores. Muito ágil entre os postes e extremamente rápido a sair da baliza, peca apenas por alguma irregularidade no momento de interceptar cruzamentos: raramente segura a bola. É, com Moreira, uma garantia de qualidade.

DÚVIDAS

Yannick – As boas exibições ao serviço do Alverca valeram-lhe um contrato com os encarnados mas não foi capaz de “esgrimir” os seus argumentos perante a experiência de Quim e a superior qualidade de Moreira. A época medíocre no Estoril não ajudou e, agora, deverá estar de saída…

DEFESA

O futuro do sector parece estar nas mãos do mercado. Com elementos fundamentais na conquista do título – como Miguel, Luisão ou Ricardo Rocha – na órbita de diversos clubes europeus, será necessário aguardar pelo desenrolar dos acontecimentos para aferir das necessidades do grupo.

CONFIRMADOS

LATERAIS

João Pereira – Raça e disponibilidade física são as qualidades de que faz apanágio e, pese embora as evidentes limitações, poderá ser um elemento útil no plantel, como recurso para as eventuais ausências de Miguel ou… Alex. É, porém, e na minha opinião, um jogador banal, cujas atitudes pouco correctas e carácter conflituoso prejudicam a imagem do clube.

Fyssas – Chegou à Luz com o título de Campeão Europeu no bolso e, depois de algumas promessas iniciais, acabou por ceder o lugar a Dos Santos. Inteligente na forma como aborda o jogo e se integra nas acções ofensivas, viu o seu rendimento afectado por algumas falhas comprometedoras, pouco consentâneas com um atleta com a sua experiência. Deverá cumprir a derradeira época de encarnado sem ter a titularidade garantida.

Dos Santos – Tal como Fyssas, é um lateral discreto que apostou na regularidade para garantir um lugar no onze. Acaba por beneficiar, no confronto directo com o grego, de alguma vantagem no que à análise de rendimento diz respeito. Não será por ele (nem, aliás, por Fyssas) que o quarteto defensivo irá soçobrar. Nenhum dos dois pode ser visto como fora de série, mas serão ambos úteis na defesa do título.

Tiago Gomes – Será uma das apostas oriundas dos escalões de formação. Sem a pujança física de Fyssas ou Dos Santos, possui superior capacidade técnica e desloca-se com maior velocidade. Terá, na próxima época, tempo para conquistar o seu espaço no lado esquerdo da defesa e é por muitos apontado como o futuro senhor da posição.

CENTRAIS

Alcides – Uma das muitas torres que passaram pelo eixo da defesa encarnada. Os bons apontamentos que, certamente, estiveram na base da sua contratação não apagaram por completo alguma inconsistência no momento da decisão. A sua época ficou marcada pela expulsão (injusta) em Alvalade mas o seu rendimento deverá melhorar se for utilizado com maior regularidade.

Anderson – Foi, recentemente, chamado à selecção brasileira e é tido como um valor seguro. Devo confessar, porém, o meu “azar” já que, nos jogos em que tive oportunidade de o ver actuar, exibiu-se de forma medíocre. Terá, provavelmente, a responsabilidade de fazer esquecer Luisão.

DÚVIDAS

Luisão – Muito criticado nos primeiros tempos de águia ao peito (e eu fui um dos “críticos”), acabou por se assumir como um dos líderes do sector recuado. A enorme envergadura não lhe garantiu total supremacia no ar mas, com o passar do tempo, adaptou-se à realidade portuguesa e desempenhou um papel fundamental na conquista do título. Na memória dos benfiquistas ficará sempre aquele salto com Ricardo. Está com um pé fora da Luz e, provavelmente, deixará saudades.

Ricardo Rocha – O seu apelido resume, com exactidão, a sua atitude e as suas qualidades. Intratável e autoritário no confronto directo (excepção feita ao lance do primeiro golo do Sporting em Alvalade), Ricardo coloca sempre o coração ao serviço da sua capacidade física, sem deixar de impressionar pelo excelente tempo de desarme. Uma coisa vos garanto: eu não saltava com ele, nem no meio campo… A sua possível saída poderá, no meu entender, ser ainda mais marcante do que a do habitual parceiro no centro da defesa, tal é a energia que transmite aos seus companheiros. Se lhe tivessem pago o que merece…

Miguel – Deveria agradecer, todos os dias, pelo “olho” de Chalana. O antigo “craque” (e que craque!) apostou nele para o lado direito da defesa no único jogo que orientou e Camacho, aproveitando a deixa, transformou-o num dos mais exuberantes laterais do futebol europeu: o espanhol disse-lhe que seria o melhor lateral-direito do Velho Continente e, para espanto de muitos, Miguel… acreditou. Perdeu-se um extremo medíocre e ganhou-se um grande jogador. Na época do regresso aos triunfos cotou-se como um dos principais “desequilibradores” da “máquina encarnada”, isto apesar de integrado no quarteto defensivo, tendo desempenhado um papel fundamental no sucesso alcançado. Terminou a temporada em sofrimento e a águia ressentiu-se da sua “ausência”. Terá apenas de refrear alguns excessos fora dos relvados para garantir um lugar na elite, oportunidade que deverá surgir já na próxima temporada.

André Luís – Poucas oportunidades para demonstrar o potencial que alguns lhe reconhecem. Alguns momentos menos felizes foram agravados por declarações recentes: André Luís fez exigências e colocou em causa a vontade de continuar, o que lhe pode valer… a porta da rua.

Alex – Se Miguel “deve” o sucesso a Chalana, a possível “ressurreição” de Alex tem em Manuel Machado o principal responsável: o técnico do Guimarães, tal como havia feito o inesquecível “Chala”, adaptou o extremo a lateral e fez dele… Internacional A. Os responsáveis encarnados devem ter visto com agrado a boa exibição do ex-Moreirense ao serviço da Selecção Nacional e, perante a possível saída de Miguel, podem ter encontrado num futuro dispensável um reforço de peso.

Amoreirinha – Será, de entre o “contentor” adquirido em Alverca, o elemento com maior potencial. O jovem defesa tem na polivalência um trunfo – pode actuar sobre os flancos ou no centro da defesa – mas o seu futuro imediato deverá passar por novo empréstimo.

MEIO-CAMPO

A acreditar na manutenção do “núcleo duro”, o sector intermédio do emblema da águia é a maior garantia de rendimento. Petit e Manuel Fernandes formam uma dupla de betão e apenas a função de médio ofensivo deveria contar com uma alternativa de peso a Nuno Assis. Com um organizador de jogo de outra dimensão, os encarnados só teriam a ganhar. A contratação de Beto enquadra-se, aparentemente, na tentativa de dotar o plantel de uma segunda linha capaz de, esporadicamente, render os indiscutíveis.

CONFIRMADOS

MÉDIOS DEFENSIVOS

Manuel Fernandes – Demonstrou, durante toda a temporada, uma invulgar maturidade para alguém tão jovem. Foi, a par de Petit, uma peça chave no regresso aos títulos, assegurando a permanente “viagem” entre as duas áreas de rigor. Senhor de impressionante capacidade física, convenientemente acompanhada de apreciáveis atributos técnicos, é já uma referência na sua posição. Recupera como poucos, revela inteligência no último passe e ainda provou ser um factor a ter em conta no momento do remate. Se nada de anormal suceder na sua evolução, o “céu” será o limite para esta jovem estrela. Na selecção, com a companhia do leão João Moutinho, Portugal poderá ter meio-campo para os próximos 10 anos.

Petit – Agradecia que algum cientista me explicasse este fenómeno: como pode um coração tão grande caber num peito tão pequeno. Haverá, certamente, quem possua maior qualidade técnica e superior envergadura física, mas não conheço quem tenha tal intensidade competitiva. Petit actua sempre em constante superação e, ao contrário de tantos outros, ainda descobre reservas para estar à altura dos momentos decisivos. Insuperável na vontade de vencer. Sei que muitos o consideram “caceteiro” mas, apesar de disputar a bola no limite, fá-lo sem maldade. Ninguém mais do que ele mereceu o título.

Bruno Aguiar – Foi a principal alternativa aos dois crónicos titulares mas, confesso, esperava mais deste jovem médio. Com bom sentido de posicionamento e uma técnica acima da média, o novo camisola 8 pecou por excessiva timidez na tentativa de conquistar o seu espaço e, muitas vezes, tornou-se redundante. A próxima época deverá ser decisiva para o seu futuro: ou evolui de forma clara ou deitará por terra a oportunidade de vingar na Luz.

Everson – Quem? Do anunciado especialista em bolas paradas apenas retive o segundo termo: parado.

Beto – O possante médio que os encarnados resgataram à descida de divisão (representava o despromovido Beira-Mar) carrega o ónus de ter sido o primeiro reforço do campeão nacional. Senhor de um forte pontapé e de uma apreciável capacidade física, deverá ser a primeira alternativa a Petit e Manuel Fernandes, ficando por saber que recepção lhe será dedicada pelos adeptos. Para já, é visto mais como um “retoque” do que como um verdadeiro “reforço”.


MÉDIOS OFENSIVOS

Nuno Assis – Chegou à Luz em Janeiro, durante um período difícil para as hostes encarnadas, fornecendo de imediato importante contributo. O seu rendimento decaiu com a progressiva adaptação dos adversários à nova configuração do meio-campo da águia, mas continua a ser o único elemento capaz de abrir linhas de passe e fornecer apoio constante ao ponta-de-lança. Apesar de rápido e muito móvel, não me parece que tenha a consistência necessária para assegurar, em exclusivo, a posição. O futebol do Benfica, contudo, ganhou com a sua entrada, mesmo que esta obrigue a custos elevados: ganha 18 mil contos por mês…

João Vilela – Médio ofensivo de boa capacidade técnica, terá na próxima temporada as primeiras experiências no mais elevado nível competitivo.

DÚVIDAS

Paulo Almeida – Não acredito que, apesar de tudo, seja tão mau como parece: ninguém pode ser tão mau como ele pareceu… O deficiente rendimento deverá apontar-lhe a porta de saída.

ATAQUE

O sucesso da próxima época em muito poderá depender de um eventual reforço da posição de ponta-de-lança. Embora, sem conhecer o nome e as intenções do futuro técnico, não seja possível aferir do futuro modelo táctico dos encarnados, é de crer que venha a existir uma forte aposta num avançado que garanta golos e uma utilização consistente, face aos problemas físicos de Mantorras e Nuno Gomes. As alas estão “cobertas” por Simão e Geovanni, sendo apenas de registar a ausência de uma alternativa ao capitão no flanco esquerdo.


CONFIRMADOS

EXTREMOS

Simão – Palavras para quê? É a principal arma do ataque encarnado e a “gazua” a que a águia sempre recorre para penetrar a muralha defensiva dos adversários. Mais maduro, menos egoísta, sacrificou-se pelo colectivo e, apesar de ter chegado à derradeira etapa da temporada em francas dificuldades de ordem física, assumiu a responsabilidade de liderar o grupo rumo ao título. Fundamental pelos desequilíbrios que cria mas, também, pela elevada precisão na cobrança de livres directos. Sem ele, este Benfica não seria campeão.

Geovanni – Uma eterna incógnita. Inspirado, é um permanente dor de cabeça para os adversários mas, como tantas vezes sucede, pode desaparecer do encontro sem que ninguém perceba o porquê. Teima em não ser o jogador em que todos percebemos que se poderia tornar mas, assim mesmo, tem a sua quota-parte de responsabilidade no sucesso alcançado. Continuo convencido (e ele também) de que não é extremo, mas sim um segundo avançado, posição, aliás, em que actuava no Cruzeiro. A “Soneca” terá mais episódios na próxima edição da SuperLiga

Carlitos – Tanto azar deve ser do nome… Depois de ter ficado impressionado com as prestações de elevado gabarito ao serviço do Estoril, na Liga de Honra, esperava muito mais da sua primeira época de águia ao peito. As persistentes lesões impediram-no de actuar com regularidade, o que obsta a que possa fazer uma avaliação realista da sua capacidade para representar um grande.

Hélio Roque – Não se trata de um extremo de raiz, muito embora, com toda a probabilidade, as suas características o venham a “empurrar” para as faixas laterais. Outro “produto” da formação que terá, aos poucos, a oportunidade de conviver com os mais graúdos.

PONTAS-DE-LANÇA

Mantorras – Nunca poderá voltar a jogar, com regularidade, 90 minutos, duas vezes por semana mas, com permanente acompanhamento e sistemáticos tratamentos, continuará a proporcionar algumas pinceladas do seu entusiasmante talento. Não se pode contar com ele a tempo inteiro mas, nos momentos em que o seu contributo for possível, será uma ajuda preciosa.

Nuno Gomes – Sei que muitos irão discordar da minha opinião, mas apenas os persistentes problemas de ordem física o impedem de ser, consistentemente, o melhor ponta-de-lança português – estes deverão, contudo, continuar… Se, na Selecção Nacional, deveria ter lugar cativo na frente de ataque (discussão para outra oportunidade), num campeonato com 34 jornadas exige-se maior regularidade na principal tarefa de um avançado: marcar golos. Contribui de forma decisiva para a construção da manobra ofensiva e para a criação de espaços na área adversária mas, ultimamente, tem ficado aquém das expectativas no capítulo da finalização.

Karadas – As deficiências de ordem técnica são indisfarçáveis, mas a sua envergadura física garante-lhe utilidade marginal quando o futebol directo é a principal alternativa. Não me parece, porém, que possa continuar a ser uma das principais opções.

DÚVIDAS

Engloba-se aqui o “autocarro” proveniente de Alverca. Tenho muitas dúvidas que, mesmo a médio prazo, qualquer destes jogadores venha a ser de grande utilidade ao Benfica: Zé Rui, Artur Futre, Manú e Rodolfo Lima,

terça-feira, 7 de junho de 2005

FC Porto 2005/06

Depois de, nos últimos tempos, se ter dedicado à vertente financeira, à política desportiva e às convulsões na "cúpula dirigente" leonina, este blog regressa ao futebol propriamente dito.

Proponho-me a, nos próximos dias, fazer aqui uma primeira análise aos planteis dos três "grandes". Numa altura em que o mercado de transferências ainda permite muitas evoluções, importa verificar quais as necessidades dos crónicos candidatos ao título nacional.

Assim, por sectores e individualmente, com os dados de momento disponíveis, começo, hoje, pelo FC Porto.

Trata-se aqui de uma mistura de informação com opinião e, em relação a esta segunda vertente, não estou à espera que concordem comigo...

GUARDA-REDES

Sendo este um sector onde a qualidade dos elementos disponíveis era já uma garantia, o FC Porto optou por contratar mais dois "especialistas". Paulo Ribeiro deverá defender a baliza da equipa B, mas a chegada de Hélton não deixa de surpreender, uma vez que constitui um obstáculo à afirmação de um indiscutível talento. As mudanças, porém, não deverão obstar a que, uma vez mais, Baía seja "senhor" do lugar.

CONFIRMADOS

Vítor Baía - Será, provavelmente, o único dragão a poder reclamar uma boa prestação durante a temporada agora finda. Sobra-lhe em qualidade e experiência o que lhe poderá faltar em carácter e profissionalismo, sendo praticamente certa a sua permanência entre os postes, como indiscutível titular. Continua a ser uma garantia.

Hélton - Chegou numa altura em que Baía estava a ser aliciado pelos milhões russos, mas terá de se contentar com a sombra do "eterno" 99. Felino entre os postes - sobretudo nos jogos mais mediáticos - terá de apagar a imagem errática deixada pelos inúmeros exemplos de desconcentração. Tenho sérias dúvidas em relação à sua capacidade para defender a baliza de um grande.

Paulo Ribeiro - Chega para ocupar o terceiro lugar entre os candidatos à baliza e, entretanto, preencher a vaga deixada em aberto por Bruno Vale na equipa B.
Não me parece que venha acrescentar nada ao plantel azul e branco.

SAÍDAS POR CONFIRMAR

Nuno - Poucos conhecerão tão bem a sensação de ver uma partida a partir do banco de suplentes. Desempenhou o seu papel, mas já ninguém acredita que possa ser uma alternativa na sucessão a Vítor Baía. Deverá dizer o adeus definitivo ao dragão e, quem sabe, talvez consiga jogar antes de terminar a carreira...

Bruno Vale - "Conquistou" um lugar na ribalta do futebol português graças à falta de profissionalismo e bom senso do senhor Scolari, mas merecia muito mais. O titular dos Sub-21 é um guardião de enorme talento e, por ser um "produto" da casa, seria, a prazo, a melhor aposta para "exorcizar" o "fantasma" de Vítor Baía. Para já, precisa de jogar e o futuro imediato deverá passar pelo empréstimo.

DEFESA

Trata-se de um sector em remodelação, sobretudo no que ao lado direito diz respeito. A saída de Seitaridis obriga à contratação de um defesa-direito, enquanto, no eixo, a experiência de Jorge Costa e Pedro Emanuel servirá de apoio ao "crescimento" de Ricardo Costa. A principal lacuna identificável terá de ser um factor no momento de escolher os reforços: falta velocidade.

CONFIRMADOS

LATERAIS

Nuno Valente - Só mesmo Mourinho para fazer dele campeão europeu... Sujeitando-me às críticas dos seus defensores, confesso que a minha opinião sobre ele não mudou. Nuno Valente é um jogador banal que, na ausência do "mestre", revela as suas limitações - as suas prestações ao serviço da Selecção são disso um bom exemplo. Não quero com isto dizer que não possa desempenhar com aproveitamento razoável as suas funções, desde que enquadrado numa formação organizada. Apenas que não é, nem será nunca, uma referência na sua posição. Se as lesões o deixarem, deverá ser titular.

Leandro - Chegou com rótulo de reforço, mas não foi capaz de demonstrar as qualidades necessárias ao colmatar das lacunas existentes na ala esquerda da defesa. Fica por saber se terá mais e melhores oportunidades para convencer os adeptos durante a próxima temporada.


CENTRAIS

Jorge Costa - O "Bicho", tal como Baía, parece eterno. Sendo verdade que o estatuto que conquistou lhe concede os favores da arbitragem, o seu espírito competitivo, aliado à capacidade de liderança, fazem dele, ainda hoje, uma referência do futebol português. Dizia-se que estava acabado e apenas tinha sobrevivido "ao colo" de Jorge Andrade e Ricardo Carvalho, mas demonstrou que o saber acumulado ainda lhe garante um posto de destaque na defensiva portista.

Pedro Emanuel - As suas características permitiram-lhe personificar o espírito de um "jogador à Porto" e, beneficiando dessa atitude, conseguiu que muitas das suas limitações fossem negligenciadas pela crítica e pelos adeptos. "Vive" do sentido de posicionamento mas falta-lhe a sabedoria de Jorge Costa na utilização do poder físico para disfarçar a lentidão. Será sempre útil, mas o "Bicho" precisa de alguém mais rápido a seu lado.

Ricardo Costa - Convenceram-no de que seria o novo Fernando Couto mas, na minha modesta opinião, está a anos/luz da qualidade que este evidenciava na sua idade. Tem na polivalência um dos principais atributos mas terá de conquistar um lugar no centro da defesa para atingir todo o seu potencial. O futuro dependerá, porém, da forma como a sua personalidade se desenvolver. O que se passou no Europeu e nos Jogos Olímpicos não se pode repetir.

Pepe - Há quem diga que, no FC Porto, com a permissividade das arbitragens, qualquer defesa de destaca. Pepe é o melhor argumento contra este preconceito. Muito dotado do ponto de vista físico e senhor de razoável técnica individual, o brasileiro peca pelo deficiente posicionamento e pela incapacidade de gerir as emoções. Tem margem de progressão, mas só a poderá aproveitar se admitir os seus defeitos e demonstrar vontade de os corrigir.


SAÍDAS POR CONFIRMAR

Areias - Um verdadeiro erro de "casting". O "amigo" de Boloni permaneceu toda a temporada num plantel do qual Rossato foi dispensado. Incompreensível. Deverá sair para não mais voltar.

Bruno Alves - A melhor solução para o FC Porto poderá passar pelo aproveitamento do interesse que este central granjeou entre alguns clubes ingleses. Dá nas vistas pela forma aparatosa como disputa as bolas pelo ar e as perde rente à relva. Um "bluff" em que os dirigentes azuis e brancos não devem acreditar.

MEIO-CAMPO

O sector intermédio foi alvo de uma verdadeira revolução. Depois de Deco e Pedro Mendes, o meio-campo dos campeões europeus sofre agora a derradeira transformação, confirmadas que estão as saídas de Costinha e Maniche. A qualidade dos intervenientes está, porém, assegurada, embora me seja impossível entender o teor de certas opções. Nas mãos de Co Adriaanse está a tarefa de configurar uma disposição táctica que permita enquadrar os atletas disponíveis. Para já, contudo, o desequilíbrio (por excesso) parece evidente, sobretudo no que ao posto de médio ofensivo diz respeito.

CONFIRMADOS

MÉDIOS DEFENSIVOS

Bosingwa - Voluntarioso e frequentemente sacrificado às necessidades do colectivo, o internacional Sub-21 estancou na sua evolução. A versatilidade deixou, no meu entender, de ser um trunfo pessoal para passar a constituir-se como um travão à definição das suas características. Hoje, poderá ser capaz de "desenrascar" em diversas posições - desde lateral a extremo, passando pelo centro do terreno - mas não me parece talhado para conquistar um lugar cativo em qualquer uma delas. Necessita de apoio urgente - e consequente definição de funções - para solidificar o seu futebol.

Raul Meireles - Sou um confesso admirador das suas qualidades, razão pela qual me surpreendeu que não tivesse merecido mais atenção de Vítor Fernandez. Voltou a ser opção com a chegada de Couceiro mas terá de adequar o seu futebol às exigências do FC Porto se quiser lutar por um lugar no onze, sob pena de não corresponder às expectativas em si depositadas. Talento não lhe falta.

Paulo Machado - Será, porventura, o atleta oriundo dos escalões de formação com maiores possibilidades de corresponder às exigências do futebol profissional. Jogador completo e inteligente, já granjeou um apreciável número de admiradores, entre os quais se conta... Ricardo Quaresma. Merece oportunidades.

Sandro - Entramos no campo das opções difíceis de entender. A saída de Costinha poderia aconselhar ao reforço da posição, mas as soluções disponíveis no plano interno parecem-me mais do que suficientes para suprir as necessidades. Trata-se de um jogador experiente, com qualidade, mas que, no meu entender, nada de novo traz ao plantel.

Lucho González - É, para já, o principal investimento azul e branco do defeso. Apontado como um dos futuros representantes da elite do futebol argentino, este médio poderoso ganhou notoriedade à custa da capacidade evidenciada entre as duas áreas, terrenos que galga com surpreendente facilidade. Mais do que um "trinco", Lucho personifica o moderno "box-to-box", sendo apenas necessário perceber se conseguirá fazer o mesmo "ao som" do mais intenso ritmo do futebol europeu. Apresenta-se como candidato a ser uma das novas referências do Campeonato.

Paulo Assunção - Os dirigentes azuis e brancos garantem que deverá fazer parte do plantel, mas dificilmente o médio "roubado" ao Sporting será capaz de ultrapassar a concorrência. A sua principal virtude estará na capacidade física.

MÉDIOS OFENSIVOS

Ibson - Poderia estar inserido na categoria anterior mas a preponderância que assumiu na construção da manobra ofensiva na segunda metade da temporada aconselhou-me a inclui-lo entre os "ofensivos", salvo seja... Veio no mesmo "barco" que trouxe nomes bem mais sonantes mas, depois da natural desconfiança de quem não o conhecia, demonstrou ser uma verdadeira mais-valia. Inteligente na gestão da posse de bola, abnegado na entrega ao jogo e bem mais disciplinado no plano táctico do que a esmagadora maioria dos seus compatriotas, o médio do Flamengo foi uma agradável surpresa e será um dos valores seguros no arranque da próxima época.

Diego - O facto de ter sido primeiro jogador desde Pelé a vestir a camisola 10 do "escrete" aos 17 anos catapultou-o para a ribalta do futebol mundial. Este fenómeno "nascido" no Santos - o mesmo clube do referido "Rei" - provocou, com o seu ex-companheiro Robinho, a cobiça dos maiores colossos do Velho Continente mas foi ao Dragão que os milhões da Liga dos Campeões o destinaram. É capaz de coisas que só estão ao alcance dos predestinados, mas ninguém se pode esquecer que se trata de um atleta muito jovem, com enorme margem de progressão, a quem não se pode pedir que "carregue" uma equipa como o FC Porto - como fez, e mal, Luiz Fernandez. Na Europa, é obrigado a jogar mais longe da baliza, com maiores responsabilidades no momento de recuperar a bola, sendo necessário tempo para que se possa adaptar e "crescer".

Leandro do Bonfim - Precedido pela reputação de "craque", não confirmou o estatuto nas raras aparições no onze, embora, em seu benefício, seja necessário dizer que estas se deram sobre a esquerda do ataque, que não é o seu terreno preferido. O problema pode passar mesmo por aí: médios organizadores, que preferem actuar soltos, à frente do sector intermédio, não têm muito espaço no futebol moderno, dado agravado pela coexistência com atletas com preferências semelhantes, como Diego, Jorginho, Hugo Leal ou Leo Lima. Muita gente para um posto onde, quando muito, só um poderá actuar (admito apenas, com reservas, uma eventual compatibilidade com Diego).

Jorginho - Há várias épocas que desejava ver Jorginho num clube com maiores ambições. Trata-se de um atleta de invulgar talento, que chegou a Portugal numa fase precoce da carreira, depois de ter representado, com assiduidade, os escalões jovens da selecção brasileira. No FC Porto, terá como obstáculo o "sobrepovoamento" da sua posição natural, razão pela qual poderá conhecer muitos minutos nas alas, ou numa zona mais próxima do ponta-de-lança. Rápido a pensar e a executar, possui os argumentos próprios de um jogador decisivo. Resta apenas saber se não passou demasiado tempo num clube de média dimensão.

DÚVIDAS

Leo Lima - Médio ofensivo de enorme capacidade técnica, falhou no Dragão, tal como já tinha fracassado em experiências semelhantes. A solidez psicológica e a postura profissional nem sempre acompanham o talento... Deverá sair sem glória.

Hugo Leal - Um favor a Jorge Mendes abriu-lhe as portas do Dragão mas, como em Madrid, o médio formado na Luz não esteve à altura das exigências. Duvido que alguém tenha ficado surpreendido...

ATAQUE

Se, no meio-campo, se procedeu a uma "revolução", o ataque será alvo de um mais conservador "golpe de estado". Isto porque, apesar da garantida continuidade de elementos fundamentais - como Postiga ou Quaresma -, a iminente saída de Benny McCarthy assume inegável relevo. Com "Big Benny" a fazer as malas e Luís Fabiano a caminho de Sevilha - por este "Fabuloso" não se derramam lágrimas - a "face" ofensiva do dragão será, certamente, bem diferente: Lizandro Lópes e Alan são reforços.

EXTREMOS

Quaresma - Não se pode pedir demais... Não queriam, certamente, que, depois de lhe ter concedido tamanhos dotes futebolísticos, Deus lhe desse também um cérebro?! Ironias à parte, o "mustang" que Boloni lançou no Sporting e Mourinho gostaria de "domar" foi, nesta primeira época de azul e branco, fiel a si próprio. Decisivo quando aplica o seu fantástico talento de forma objectiva, mas errático e discreto quando as coisas não lhe correm de feição. Se algum dia descobrir a forma correcta de gerir criatividade e empenho, será imparável. Para já, não deixa de ser, confirmada que esteja a saída de McCarthy, o principal foco de desequilíbrios no ataque dos dragões.

Ivanildo - Veloz e dotado de boa técnica individual, foi aposta de José Couceiro na sua curta passagem pelo Dragão e despertou o interesse dos adeptos. O seu potencial é inegável, mas não me parece ainda preparado para este nível competitivo. Deverá dispor, progressivamente, de algumas oportunidades.

Bruno Gama - O minhoto que, no passado, já tinha sido dado como certo na Luz, começa a abrir a porta do plantel principal. Tendo na capacidade técnica e no drible os seus principais atributos, o extremo deverá, aos poucos, fazer algumas aparições entre os mais "graúdos". É um valor a seguir com muita atenção.

Alan - Ao serviço do Marítimo cedo deu nas vistas, criando desequilíbrios pelas alas, mas foi a consistência do seu rendimento que me alertou para a possibilidade de, um dia, chegar a um dos três grandes. O FC Porto foi quem nele apostou e, caso Co Adriaanse opte pelo 4-3-3, pode vir a revelar-se uma excelente aquisição.

César Peixoto - Mais um que estava distraído durante a divina distribuição dos neurónio... O futebol português espera há muito por um esquerdino que faça jus a uma ilustre linhagem de extremos de enorme qualidade e, apesar de ter as características necessárias ao preenchimento dessa lacuna. César Peixoto arrisca-se a passar ao lado da glória. Bem sei que Isabel Figueira pode ser uma poderosa distracção, mas a verdade é que aquela cabecinha continua a ser o maior obstáculo à concretização das promessas do seu talento...

PONTAS-DE-LANÇA

Hélder Postiga - Falando em neurónios... Ninguém questiona o seu potencial mas, por alguma razão a sua saída para o Tottenham foi "aplaudida" por José Mourinho. Tem qualidades para se tornar no melhor ponta-de-lança português mas tarda em explorá-las convenientemente. Na próxima época, sem a concorrência de "Big Benny", terá a sua prova de fogo.

Lizandro López - "Oferecido" a Benfica e Sporting, o avançado argentino só estava ao alcance da "bolsa" dos azuis e brancos. Apontado como esperança do futebol das Pampas, tem na mobilidade a sua principal arma e, apesar de não ser um verdadeiro "homem de área", pode vir a ser um reforço de peso, sempre e quando seja capaz de se adaptar ao "estilo" europeu.

Sokota - Na sequência da boa tradição portista, os "proscritos" na Luz encontram no Dragão um abrigo seguro. Assim, "O Melhor Ponta-de-Lança do Mundo Sem Calcanhares a Jogar de Costas Para a Baliza" já foi apresentado e é reforço para 2005/06. Excelente profissional e excelente pessoa, Tomo Sokota está condicionado por um problema crónico nos tendões de Aquiles mas poderá ser um elemento útil. Não esperem, porém, muitos golos do croata.

Hugo Almeida - Quando é que alguém irá apostar, com confiança e continuidade, neste avançado? A sua integração no plantel está longe de ser certa, mesmo quando se trata do único "produto" da formação lusa com características de verdadeiro ponta-de-lança. Impressionante presença física, forte no jogo aéreo e lesto no remate, Hugo Almeida já merecia mais e melhores oportunidades...

DÚVIDAS

Marco Ferreira - Um forte pontapé, uma fraca cabeça e um Ferrari... O extremo que o FC Porto foi buscar a Setúbal teima em não "crescer" e, tendo em conta o mau ambiente que faz questão de criar por onde passa, deve receber a "guia-de-marcha".

Bruno Moraes - A passagem por Setúbal permitiu-lhe uma significativa evolução mas é provável que o seu futuro passe por novo empréstimo. Tem potencial mas precisa de ganhar maior dimensão para ter lugar entre os dragões.

Jankauskas - Outro avançado com crónicos problemas físicos. Não conheço a intenção dos responsáveis azuis e brancos a seu respeito, mas dificilmente fará parte do plantel. É, no entanto, um ponta-de-lança muito útil e experiente.

McCarthy - É, a par de Liedson - com enorme distância para quaisquer outros -, o melhor ponta-de-lança da SuperLiga. Poucos possuem a sua capacidade para decidir, em segundos, o destino de uma partida. Parece estar de saída, o que, a confirmar-se, será uma baixa difícil de colmatar.

Cláudio Pitbull - Há um jogador, no plantel do FC Porto, que a ele se refere como "o oitavo anão da Branca de Neve"... Oitavo, porque nem entrou no filme... Se não fosse o dinheiro que pagaram por ele, seria uma anedota.

quinta-feira, 2 de junho de 2005

Política desportiva

Vamos então debruçar-nos sobre a política desportiva do leão.

Em primeiro lugar - para mal dos meus pecados, que estou farto de escrever sobre "pasta" - é necessário perceber que, hoje, é impossível dissociar a política desportiva das condicionantes financeiras, sendo que, muitas vezes, estas se sobrepõem, por pura necessidade, às teóricas prioridades da anterior.

Sendo certo que muitos são os erros que têm sido cometidos, convém desmistificar algumas ideias preconcebidas.

Por mais que, desportivamente, fosse aconselhável a manutenção dos grandes talentos provenientes da formação, a verdade é que a actual conjuntura económica do Sporting - e da actividade em si - não o permite. Nenhum clube português - vou repetir: nenhum clube! - pode recusar propostas milionárias por atletas oriundos dos escalões de formação. É, pura e simplesmente, impossível! Não é questão de opção!

Pode dizer-se que Cristiano Ronaldo, por exemplo, poderia ter feito mais uma época em Alvalade. Pois podia, e era suposto que tal acontecesse. Afirmar que, ficando, poderia depois ser vendido por 20 ou 30 milhões é, contudo, profundamente irrealista.

Chegamos então ao segundo aspecto: como se convence um jogador que ganha, na melhor das hipóteses, 4 ou 5 mil contos por mês, a recusar os 20, 30 ou 40 mil com que lhe acenam os colossos do futebol europeu? Como se recusam hoje 10 ou 15 milhões, sem saber o que poderá acontecer amanhã?

Para quem pede exemplos, deixo o de Dani. O médio/avançado/modelo/actor/quero-gajas/quero-todas-as-que-conseguir-aguentar tinha, aos 17 anos, mais talento do que qualquer dos que eu vi com a sua idade - Quaresmas, Ronaldos, Figos e Ruis Costas incluídos - e, no ano em que foi lançado na equipa principal, levou à "loucura" olheiros dos maiores emblemas desta Europa. Os dirigentes do Sporting foram intransigentes, Dani ficou (contrariado) e, com o tempo, perdeu-se.

Outro facto que tem de ser analisado com algum equilíbrio está relacionado com os jogadores formados em Alvalade que, hoje, estão ao serviço de emblemas rivais. Compreendo que tais incidências provoquem uma reacção emocional, mas é preciso não perder a noção da realidade. Se falamos de Simão ou Quaresma, temos de recordar que foram vendidos por somas apreciáveis e que, se hoje estão no Benfica ou no FC Porto, é porque esses clubes pagaram valores astronómicos para os contratar - e lhes pagam salários que os cofres verde e brancos não poderiam suportar.

Não quero com isto dizer que a aposta na formação é fútil, pelo contrário. Quero apenas que se perceba o seguinte: os "produtos" da formação são, para já, indispensáveis à saúde financeira do clube.

Serão, também, fundamentais para a saúde desportiva. Claro que, por muito que a reputação da "cantera" esteja em alta, não se pode pensar que há "talento" disponível para introduzir quatro ou cinco atletas por ano na equipa principal.

Não se pode construir uma equipa competitiva - ou seja, capaz de discutir a vitória nas diversas competições - com jogadores como Saleiro, Varela, Santamaria ou Djaló.

Qual é, então, a solução?

Em parte, a estratégia que tem sido seguida em Alvalade responde a esta pergunta (apenas em parte, insisto):

- aposta progressivamente maior nos atletas provenientes da formação;

- cuidada avaliação do mercado, que permita a aquisição de atletas de qualidade em condições favoráveis;

- valorização e "capitalização" dos referidos activos.

Que quer isto dizer?

Tal como muitos de vocês, que têm expressado essa vontade, também os responsáveis leoninos pretendem uma maior presença de atletas oriundos da formação na equipa principal. Trata-se, porém, de uma tarefa que tem de se desenvolver de forma progressiva, de forma a não perder capacidade competitiva.

A ponderada intervenção no mercado passa pela aquisição dos direitos desportivos de jogadores como Polga, Rogério, Liedson, Enakarhire, etc. em condições favoráveis, o que permite a sua valorização e posterior rentabilização, quer desportiva, quer financeira. Assim, uma eventual venda de Liedson, por um valor muito superior ao que foi investido há dois anos, tem de ser vista como uma medida de gestão bem sucedida, sempre e quando os responsáveis do clube forem capazes de encontrar uma alternativa em condições semelhantes. Os "ciclos" a que se refere Kovacevic no quatroquatrodois não são, para já, possíveis, pois só estão ao alcance de organizações financeiramente equilibradas. Para já, resta ao Sporting ter uma relação flexível com o mercado.

Difícil? Sim, mas é, no meu entender, o único caminho possível. Convém aqui frisar a fundamental influência de Carlos Freitas na condução destes processos. Com a sua saída, ficam algumas dúvidas, legítimas, sobre o futuro.

Não se pode, por isso, falar de "desinvestimento" na equipa principal. O investimento tem sido feito - com o duplo objectivo de recolher benefícios financeiros e desportivos - e, apesar da progressiva redução do orçamento para o futebol, o Sporting permanece na disputa de todas as competições em que participa, como se provou na época agora finda.

Resta agora saber se, com a saída de Carlos Freitas e as acrescidas responsabilidades de Paulo Andrade e José Peseiro, os resultados da gestão não serão afectados.

Posto isto, passemos às críticas:

- apesar de continuar a ser considerada um exemplo a seguir, a formação do Sporting peca por enormes deficiências no que à gestão e capacidade técnica diz respeito. O sucesso do departamento passa, sobretudo, pelo fácil acesso aos melhores talentos juvenis (todos querem jogar no Sporting), mesmo quando não existem técnicos qualificados em número suficiente ou um modelo de gestão adequado;

- se é verdade que tem existido alguma evolução no processo de aproximação entre o departamento de futebol e uma estrutura de gestão técnica e impessoal, os erros sucedem-se quando se torna necessário enquadrar o factor humano. O incompreensível tratamento a que Rui Jorge foi sujeito (só hoje lhe foi comunicada a decisão da SAD) é disso o mais recente e exacto exemplo;

- a tantas vezes referida distância que existe entre muitos dos dirigentes e o fenómeno futebol cavou um "fosso" na comunicação entre a estrutura do clube e o grupo de trabalho, que frequentemente resulta em incidentes prejudiciais aos objectivos comuns;

- ausência de uma verdadeira estratégia de comunicação, que poderia permitir a aproximação entre clube e adeptos, evitando, simultaneamente, as aparentes incoerências detectadas em declarações de dirigentes, técnicos e jogadores.

quarta-feira, 1 de junho de 2005

Um "post" sobre "pasta"

Os comentários a um dos últimos posts originaram uma discussão interessante e especialmente pertinente no momento que o Sporting atravessa. Parece-me, tendo em conta o teor das observações feitas por alguns "clientes habituais", que se justifica uma abordagem mais aprofundada do assunto, mormente quando, nos referidos comentários, estão expressas as duas principais correntes de opinião (representadas aqui por Sector 32 - entre outros - versus Papagayo e Kovacevic).

Vou tentar resumir ao máximo um post que prevejo longo e que vou dividir em dois segmentos: o primeiro reporta-se a factos e o segundo à minha posição sobre esta matéria.

1. Tal como vocês, também os dirigentes leoninos se dividem em duas correntes de opinião. Há, em Alvalade, quem defenda a actual estrutura financeira do grupo empresarial, que corresponde à forma idealizada por Dias da Cunha e seus principais colaboradores, mas também quem prefira uma concepção teórica que, geralmente, se designa por "primado do futebol".

Em causa está a orientação das receitas geradas pelas empresas do grupo (não apenas pela SAD). A estrutura vigente privilegia as necessidades colectivas do universo empresarial, numa visão "descentralizadora" dos proveitos gerados. Ou seja, o fundamental é a solidez do conjunto, independentemente dos custos e proveitos que possam ser atribuídos à SAD. Note-se que isto não significa necessariamente o negligenciar das necessidades desportivas do futebol, facto atestado pela natureza competitiva da equipa profissional, pese embora a progressiva redução do orçamento.

Os defensores do "primado do futebol" - entre os quais Filipe Soares Franco assume posição de destaque (cuidado com o que pode suceder na próxima semana) - entendem que a SAD, por gerir a principal actividade do clube, deve ocupar o epicentro do universo leonino, centralizando os proveitos por este gerados.

Esta divergência assemelha-se aos diferentes pontos de vista expressos nos comentários que referi, mas encerra algumas "nuances" fundamentais.

Trata-se aqui de uma questão de visão estratégica, que em pouco difere no que à aplicação prática diz respeito. Isto é, mesmo a opção pela segunda alternativa - primado do futebol - não significa um exponencial aumento das verbas disponíveis para investimento - leia-se salários ou reforços. Pelo contrário, as margens de manobra são reduzidíssimas e estão definidas pelas obrigações contraídas junto de terceiros.

A leitura atenta das pertinentes observações de Papagayo, divididas em vários pontos, obriga, nesta fase, a alguns esclarecimentos.

Escreve, então, o nosso "leão" revoltado: "Os custos fixos, tinham obrigatoriamente de descer numa primeira fase, e controlados numa segunda fase. A primeira foi executada por Bettencourt e está terminada. Não será possível reduzi-la muito mais, a não ser que o orçamento para o futebol se torne idêntico ao do Boavista ou Braga por exemplo".

Na realidade, a fase de redução e controlo dos custos fixos está longe de concluída e vai continuar. O padrão, para já, não serão os outros clubes mas sim as receitas que o Sporting é capaz de gerar. Aliás, essa nem sequer é uma decisão dos actuais dirigentes, mas sim um dos critérios exigidos pelos bancos na execução do "project-finance": o universo empresarial terá de reduzir as despesas em 8 milhões de euros nos próximos três anos.

"Porque é que tem de ser a SAD a suportar exclusivamente as obrigações contraídas pelo clube? Porque é que tem de ser a SAD a suportar o equilíbrio de exploração das outras empresas do universo Sporting? É justo que seja a SAD a suportar as obrigações da dívida contraída para a construção do estádio por exemplo, e os proveitos da exploração comercial desse estádio (ainda por cima muito mal feita, diga-se!) serem creditados na EJA, Sa e na Sporting Comércio e Serviços?", interroga ainda, e bem, Papagayo.

A questão que importa reter é a seguinte: a criação do grupo Sporting não foi mais que a racionalização do clube, no seu todo, em sectores de actividade autónomos. O Sporting não é a SAD, mas sim o seu conjunto. Foi com esse "conjunto" que o tantas vezes referido "project-finance" foi negociado, em benefício do "clube" e, claro, da SAD, não sendo verdade que as obrigações financeiras sejam suportadas pelos proveitos da SAD. Está nas contas. Bettencourt, como, aliás, Ribeiro Telles e Soares Franco, defendem uma reorganização estratégica mas não negam esta realidade.

Igualmente referidos foram os negócios que envolveram as saídas de Cristiano Ronaldo ou Ricardo Quaresma. Os valores alcançados pela transferência do primeiro não podem, de forma alguma, ser comparados com os praticados na aquisição de Paulo Ferreira ou Ricardo Carvalho. O mercado está em recessão e os milhões do Chelsea ou do Dínamo de Moscovo são factores de distorção imprevisíveis. Pelo contrário, deve fazer-se o paralelo entre o negócio de Ronaldo com o Manchester e o de Deco para o Barcelona. Os catalães pagaram 15 milhões - mais Quaresma, eu sei, mas mesmo sem ele não teriam dado mais um tostão, que é como quem diz, para o Barcelona não teve influência na operação sem ser no plano contabilístico - por um dos três melhores jogadores do mundo, que acabava de se sagrar campeão europeu.

Outro factor de discussão foi a noção de "risco calculado". Poderá o Sporting assumir o risco do investimento em contratações de vulto - como, por exemplo, o exercício do direito de preferência sobre Ricardo Quaresma, conveniente e propositadamente "estabelecido" em 6 milhões de euros? O problema não está sequer no risco, está nos milhões. Pura e simplesmente não há dinheiro para isso e nem sequer são possíveis as habituais engenharias financeiras pois, mais uma vez, o "project-finance" não o permite.

2 Vamos então à minha posição.

Aceito sem pejo as duas correntes de opinião acima descritas, pois ambas obedecem ao conjunto de princípios que considero essenciais ao futuro deste ou qualquer outro clube, na actual conjuntura do futebol europeu.

O caminho passa, inevitavelmente, pelo adequar das despesas à realidade financeira do clube e do mercado, processo longo mas indispensável. O trajecto do Sporting não tem sido fácil, mas permite demonstrar que esta via é possível, sem excessivo sacrifício das ambições desportivas. Com custos incomparavelmente mais reduzidos que em épocas anteriores, os leões continuam a formar equipas competitivas e, recentemente, lograram mesmo o acesso à primeira final europeia em 40 anos.

Estou, sinceramente, convencido de que só o total saneamento das finanças do grupo, que passa pela "conquista" da independência face aos compromissos assumidos, pode permitir um crescimento sustentado. Acredito que, qualquer hesitação no rumo a seguir, como a que teve lugar com Luís Duque, nos idos loucos de 2000, apenas prejudica e/ou adia o objectivo final.

Quanto mais cedo esse dia chegar, maiores deverão ser as fundadas esperanças dos sportinguistas no futuro do emblema verde e branco. Aí sim, vai ser possível falar em risco e investimento.